A crise da vulva
Eu acho que as mulheres andam em crise.
Outro dia, li uma ode à mulher má no site No mínimo que me deixou com a pulga atrás da orelha. No texto, a autora, Isa Pessoa, levanta algumas referências culturais contemporâneas comprovando que a maldade feminina está na moda. Ao ler, me lembrei de um lançamento literário de 2006 que, me parece, fala um pouco disso. O livro se chama "Mulheres boazinhas não enriquecem", de uma psicoterapeuta chamada Lois P. Frankel. Óbvio que não li a referida obra porque tenho outras leituras mais interessantes na fila, mas fico aqui pensando sobre o que estaria passando na cabeça das mulheres que querem ser meramente más e ricas.
Há uns dois anos, quem estava em crise era o homem. Diziam que aquele papo de metrossexual estava confundindo a cabeça dos machos (e cá entre nós, esse negócio de metrossexual começou há muito tempo, vide Luis XIV, no século XVII. A diferença é que a indústria cultural do século XXI encontrou aí um nicho de mercado, deu um nome bacana e começou a direcionar uma produção cosmético-cultural específica para esse público), que mulher não quer saber de homem que chora com filme da Meg Ryan ou que passa creme no rosto. Em contrapartida, surgiu o retrossexual, que se opõe aos almofadinhas do primeiro grupo, deixa a barba por fazer e as mãos cheias de calos porque, supõe-se, é disso mesmo que elas gostam. E nessa busca ensandecida do homem por ele mesmo, a mulher também acabou se perdendo.
Depois de tanto queimar sutiãs e amarras sociais e sexuais, as mulheres passaram a buscar referências que as indicasse que direção deveriam seguir: a Madonna do livro Sex ou a Lady Di da ajuda humanitária? A mulher do século XXI descarta ambas opções. Não quer ser santa nem puta, não quer dominar pela castidade nem pela sensualidade. Dominará por que meios, então?
Acho que elas decidiram ser más, rechear sua conta bancária e cuidar da própria vida depois de muito se iludirem com os homens. O problema é que as mulheres custaram a perceber que o jogo é esse mesmo: quem ilude quem mais rápido. Essa é uma disputa que os homens têm travado entre si por séculos. As mulheres são transparentes demais para tomarem parte neste cenário de crueldade e despotismo. Pelo menos têm sido até agora.
A atual crise feminina de referências é um bom sinal, no final das contas. Dela, eu creio, surgirá um novo modelo comportamental feminino que determinará que as mulheres não precisam se preocupar tanto em serem isso ou aquilo. Acho que finalmente a mulher está se libertando - não do homem, mas da impressão que elas precisam infalivelmente atender às expectativas que incutem a si mesmas. Isso me lembra aquele pensamento popular que trata da insuperável competitividade feminina. É uma idéia que explica que a mulher tem os seus meios próprios de brigar. Ela só precisa encontrar um inimigo à altura, porque o homem já foi muito diminuído pela discussão de seu papel enquanto macho.
Senhor filme
Tempo bom
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Funk do Tapa na Pantera
porque a risada é, sem dúvida, um grande... radar.
Vida longa aos pingüins
"Das coisas que a maré traz" virou a minha coluna semanal no Lobotomia.
Se eu fosse um super-herói, eu seria o...
Texto de terceiros
o hermes, cujos blogs já estão linkados aí do lado, achou esse texto aqui na web e leu pra mim, ontem. fui à cata do link e o copio neste Bumerangue - sem vergonha mas com crédito.
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A crônica é a expressão das contradições da vida e da pessoa do escritor ou jornalista, exposto que fica, com suas vísceras existenciais à mostra no açougue da vida, penduradas à espera do consumo de outros como ele, enrustidos, talvez, na manifestação dos sentimentos, idéias, verdades e pensamentos.
Já escrevi mais de cinco mil crônicas. E a uns estudantes que me pediram uma síntese sobre o gênero, respondi o seguinte:
É o samba da literatura. É ao mesmo tempo, a poesia, o ensaio, a crítica, o registro histórico, o factual, o apontamento, a filosofia, o flagrante, o miniconto, o retrato, o testemunho, a opinião, o depoimento, a análise, a interpretação, o humor. Tudo isso ela contém, a polivalente. Direta a simples como um samba. Profunda como a sinfonia.
É compacta, rápida, direta, aguda, penetrante, instantânea (dissolve-se com o uso diário), biodegradável, sumindo sem poluir ou denegrir, oxalá perfume, saudade e algum brilho de vida no sorriso ou na lágrima do leitor.
A literatura do jornal. O jornalismo da literatura. É a pausa de subjetividade, ao lado da objetividade da informação do restante do jornal. Um instante de reflexão, diante da opinião peremptória do editorial.
É tímida e perseverante. Não se engalana com os grandes edifícios da literatura, mas pode conter alguns de seus melhores momentos. Não se enfeita com os altos sistemas de pensamento, mas pode conter a filosofia do cotidiano e da vida que passa. Não se empavona com a erudição dos tratados, mas pode trazer agudeza de percepção dos bons ensaios.
Para ser boa, não deve ser mastigada. Deve dissolver-se na boca do leitor, deixando um sabor de vivência comum. Deve parecer que já estava escrita há muito tempo na sensibilidade de quem a lê e foi apenas lembrada ou ativada pelo escritor/jornalista que lhe deu forma.
Deve ser rápida como a percepção e demorada como a recordação. Verdadeira como um poente e esperançosa como a aurora. Irreverente como um carioca. Suave como pele de mulher amada e irritada como uma criança com fome.
Terna como a amamentação e insegura como toda primeira vez. Religiosa como a portadora do mistério e agnóstica como um livre pensador. A crônica nos obriga à síntese, à capacidade de condensar emoções em parágrafos-barragem. Faz-nos prosseguir, mesmo quando nos sentimos repetitivos. É, pois, a expressão jornalístico-literária da necessidade de não desistir de ser e sentir. A crônica é o samba da literatura.
in Jornal O Dia, edição de 27 de junho de 2001.
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o questionário que segue foi roubado da newsletter do Digestivo Cultural.
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crônica nova.
Das coisas que a maré traz
Eu sonhei com pingüins de novo. Será que é um sinal? O que eles querem me dizer? Antártida? Garçons? Será que em alguma cultura meridional pingüim frito com polenta é uma iguaria? Será que existe alguma cultura antártica, afinal? Que eu saiba, assim como os ursos polares, esquimós só existem no Pólo Norte. Mas eu já ouvi dizer que a verdadeira Atlântida - uma terra mítica e habitada que foi engolida por algum oceano, na Antigüidade - se chama Antártida. Não sei se isso é verdade, mas faz muito sentido quando eu me lembro que gelo também é água.
Sempre que eu penso na Atlântida, o que não ocorre lá muito seguido, eu me lembro do Triângulo das Bermudas. O meu irmão me contou uma vez que o vórtice gravitacional que alimenta o famoso Triângulo tem um equivalente aqui na costa do Rio Grande do Sul. Ele me disse também que a quantidade de navios afundados no litoral gaúcho explicaria a existência de um fenômeno do gênero nesta região. Na verdade, eu não sei se foi o meu irmão quem me disse isso ou se eu vi no Discovery Channel. Mas o que importa é que toda a vez que eu penso na costa gaúcha, eu me lembro da Praia do Cassino, a de maior extensão do mundo.
Meu avô tinha uma casa lá. Uma vez nós fomos visitá-lo. Eu tinha nove anos, na época. Me lembro que tiramos uma foto em frente a um enorme esqueleto de navio encalhado à beira-mar. Ventava muito naquele dia.
A Praia do Cassino é perto do fim do mundo, à direita. É entre Porto Alegre e o Uruguai - aquele país que fica entre Porto Alegre e Buenos Aires, lembra? Saindo de São Paulo, é só seguir as placas que dizem "as botas perdidas de Judas". Quando você vir uma praia bem longa e nem uma viva alma nas ruas, é um sinal que chegou no Cassino. Geralmente tem uns pingüins vindos da Antártida que se perdem por ali. Muitos deles conseguem voltar para casa. Outros encalham à beira-mar, restando apenas seus esqueletos que o tempo e o sal fazem questão de corroer. Tristemente, acabam virando atração para turista da capital. Um final nada digno para quem nadou desde os confins da antiga Atlântida.
O mar sempre me intrigou. Aquela infinitude é um convite espontâneo à reflexão. Por exemplo, basta ir à praia e olhar para o céu que você percebe que a Terra é redonda. A abóbada azul lá em cima é um indício muito óbvio disso. Não sei como aqueles manés das épocas pré-navegações tinham tantas dúvidas quanto a algo tão lógico. Acho que eles não iam muito à praia. Afinal, quem inventou esse negócio de banho de mar foram os índios. E, ouvi dizer, os índios brasileiros, mais especificamente. Tá aí uma grande contribuição brasileira para o mundo, além da bunda e do avião: a cultura de praia. Tão relevante que até o prefeito de Paris, no último verão francês, mandou improvisar uma praia às margens do Sena. Ouvi dizer que deu mó problema porque as francesas cabeludas abusaram no topless. E até eu já esperava por essa.
Porém, diferentemente do Cassino, a praia parisiense não tem navio encalhado. Nem pingüim perdido. Só garçons - que são muito parecidos, mas bem mais caros. Isso porque são levados por outra corrente que não a marítima: a migratória. E ao contrário dos primeiros, que vêm da Antártida, os garçons das praias parisienses são oriundos da África, da Turquia ou do Oriente Médio - regiões bem mais complicadas que o frio continente antártico.
Ou seja, no final das contas e apesar de tudo, acho que quem se dá melhor nessa história são os pingüins da Antártida. Na Praia do Cassino, eles encontram bem menos preconceito que seus irmãos de Paris. Lá na França, quando se vê um grupo de pingüins africanos, turcos ou árabes à paisana, o povo tem medo e atravessa a rua. Na Praia do Cassino isso não acontece. Acho que os nossos nativos são mais cosmopolitas, sabem aceitar o diferente. Mas não cabe a mim julgar. Só sei que cada um tem a Paris que merece.
Ob-la-di, ob-la-da
fiz os cálculos e concluí que as quatro horas diárias em pé durante a Feira do Livro equivaleram a três dias sem intervalo. parece pouco, mas quando se considera a multidão, a pirralhada que quer "mexer" no computador e as pessoas fedidas, é muito. mas valeu a pena. foi divertido e enriquecedor.
um pensamento: sabe aquela impressão que a gente tem que ninguém presta muito a atenção nas pessoas que distribuem panfletos e orientam multidões nos estandes das feiras por aí? é verdade. ninguém presta atenção mesmo. estar do outro lado me fez perceber que o operariado invisível tem as suas vantagens: dá para reclamar à vontade que ninguém te ouve. a invisibilidade é tão reconfortante, às vezes.
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aproveitando o ensejo, mandei e-mail para o Papai Noel pedindo um cd em que ela canta só Chico Buarque - porque eu só consigo achar graça em Chico Buarque quando é a Maria Bethânia quem canta.
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Fauna onírica
eu ando sonhando direto com animais.
outro dia, sonhei que dava carona num fusca velho a um pingüim simpático* e a uma ema cantante. eu os levava para um castelo que ficava no alto de uma montanha verdejante. quando chegamos lá, a ema se pôs a fazer o que sabia de melhor - cantar - e o pingüim encontrou um exército** de pingüins felizes que marchava ordenadamente saindo de um salão e entrando em outro. foi tão bonito.
noite passada, sonhei que eu tinha que pular sobre um tanque em que uma cobra azul e branca dessa grossura e com uma cabeça desse tamanho nadava freneticamente. um duende, ou anão, não me lembro, me falou que eu não precisava temer porque a cobra era mansa. eu duvidei e pensei "pô, com uma boca dessas, ela me engole sem precisar mastigar". acordei e não consegui mais dormir.
minha mãe me mandou jogar no bicho. não sei se em pingüim, ema, cobra ou anão***.
* pingüim simpático é pleonasmo;
adendo: pesquisando na web, percebo que o coletivo de aves é bando. se (pelo menos até segunda ordem) pingüim é ave, o coletivo de pingüins é justamente bando.
Estréia on-line
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