O jardim das delícias

Temos aí um ano que se encerra. É uma porta que se fecha às nossas costas e outra que se abre diante de nós. Não, leitor, não vou lhe ocupar com mais um daquelas listas que enumeram o melhor e o pior do ano que termina. Pretendo apenas dizer que tudo o que eu lhe desejo em 2008 um cara já pensou e retratou, em 1504. Falo de uma das minhas telas preferidas, intitulada O jardim das delícias terrenas, de Bosch.

Painel central de um tríptico que ilustra a criação e perdição do mundo, O jardim... é o trabalho mais conhecido do pintor holandês. Sua fama talvez tenha surgido da vivacidade com que cenas de júbilo sexual são retratadas na referida tela. Corpos nus de homens e mulheres se tocam, dialogam e gozam, explorando orifícios e posições sexuais com naturalidade e alegria. Não há sexo explícito, pelo menos na concepção de sexo do século XXI, mas as impressões de um mundo efusivo, liberal e divino estão lá, no ar, na água e na pradaria, cavalgando javalis, camelos, ursos e até pombas.

Bosch, que dizem ter sido o primeiro artista surrealista e inspiração primeira de Dalí, criou um mundo de farturas diversas: fartura de comida, com framboesas e morangos gigantes, fartura de amor, alegria e liberdade. Na tela de O jardim..., se você quiser enfiar a cabeça dentro de uma azeitona gigante, você pode. E se quiser fazer troca-troca dentro de um lago, também. Tudo sem culpa. A igualdade entre os homens é alcançada através do prazer. Deve ser por isso mesmo que a Santa Igreja sempre foi tão proibitiva quanto ao sexo.

Amem mais, sintam mais, divirtam-se mais e ignorem quem diz que a vida tem que ser séria. Essas pessoas não seriam convidadas a entrar n´O jardim das delícias terrenas. Se afastem desses malas agora.

Desejo a todos um ano novo com mais sabores, cores, prazeres e delícias. E bem menos culpa. A vida fica mais doce quando a gente se permite.

***

Texto originalmente publicado em dezembro de 2006 no finado site Lobotomia. Pra ver a tela de Bosch, clique aqui.
quarta - 26 de dezembro, 10h30


Balanço geral de 2007

Sem querer ser o estraga-prazeres da galera, mas já sendo, 2007 foi um ano de poucas surpresas. Na verdade, tenho a impressão que o ano que termina foi de confirmações do que todo mundo já sabia. Exemplos:

- A influência humana no aquecimento global deixou de ser teoria e passou a ser fato. Todo mundo sempre soube que anos e anos de CO2 jogado na atmosfera não era qualquer bobagem, mas foi preciso gastar milhões e milhões de dólares euros em relatórios e mais relatórios pra convencer os americanos e chineses disso. O ano termina e a gente continua sem saber o que fazer com toda essa sujeira. Se fosse um jogo contra o Coisa Ruim, ele já teria ganhado fácil, fácil.

- Calcinha é brega. A onda de 2007 foi andar com a perereca ventilada em casa, na rua, no supermercado e na festa, como fizeram Britney, Paris e todas as outras. Nunca a humanidade viu tanta vagina na rua. Os romanos veneravam o falo. Inspirados nele, faziam bibelô, móbile, almofada e escultura. Parece que chegou a vez da vagina. É justo.

- Os neocaretas estão assumindo o controle do mundo. Os programas da televisão agora têm classificação etária, as novelas têm cada vez mais roupas e menos pele e a banheira do Gugu não tem perspectivas de voltar. Pra quem cresceu vendo a Lolita-Xuxa desfilar em trajes mínimos no meio das crianças, é um choque. Em 2008, podemos esperar a morte da cintura-baixa, do tomara-que-caia e do baile Funk. Pó escrever.

- Filho é o novo preto. Na minha faculdade, oito em cada cinco garotas estão grávidas. Todas alegam que foi acidental, o que faz delas umas porra-loucas. Na verdade, eu acho que é a comprovação da teoria que diz que as mulheres, quando em grupo, têm a tendência a menstruar e engravidar todas ao mesmo tempo. Isso, claro, sem falar nas celebirdades que, neste ano, entraram numas de ter filho a torto e à direito. Acho que elas não leram os relatórios sobre o aquecimento global e as previsões horrorosas para os próximos anos. Além disso, podemos concluir que a indústria de preservativos e contraceptivos anda à beira da falência.

- Por fim, para o choque de todos, o governo Lula está conseguindo o que pretendia. A economia nunca esteve tão bem, os brasileiros nunca compraram tanto e algumas dezenas de milhões de nós subiram da classe D e E para a classe C. Isso se chama distribuição de renda, minha gente. O lado negativo são os automóveis que não param de entrar no já engarrafado tráfego urbano do Brasil.

***

Assim, temos um beve levantamento do ano que termina. Espero que 2008 seja, no mínimo, surpreendente e não um 2007 - parte II. É o meu desejo na virada do ano.
terça - 25 de dezembro, 23h17


Vitor vê as notícias

Roubaram um Picasso e um Portinari do Masp, essa semana.

Posso falar sério? Acho roubar obra de arte muito romântico. O sujeito que encomendou o roubo não vai poder revender nem expôr - por motivos óbvios. Ou seja, as obras vão ficar na sala dele. Isto que é amante da arte! Deve ser um daqueles milionários excêntricos que bate no peito e diz "eu faço de tudo pela arte". Faz mesmo.

Tá certo, roubar é feio e blá blá blá, os dez mandamentos e blá blá blá. Mas roubar quadro é como roubar livro. E como eu sou a favor do roubo de livros, devo ser também a favor do roubo de quadros.

Aí, seu ladrão! Tô contigo!

***

Meus queridos amigos da Stereoplasticos estão na Contracapa do Segundo Caderno, hoje. O cd deles foi indicado no London Burning, categoria revelação e melhor demo. Dedos cruzados por eles!

***

Ontem, fui comprar um par de chinelas Havaianas e achei muito difícil:

- Qual modelo tu queres?
- O modelo feminino, 37.
- Não... tem com salto, rasteira, com pedrinha...
- O modelo até vinte reais.
- Tem essa grafite, aqui.
- Qual? Essa cinza?
- Não, a grafite.

Uh! Quando eu era pequeno, de-tes-ta-va Havaianas porque era chinelo de pedreiro*. Hoje, vendem em shopping e cobram os olhos da cara. Isso me lembra uma matéria da Exame que eu li, outro dia, sobre o reposicionamento de marca que a Alpargatas, fabricante das Havaianas, fez e a Grendene, fabricante do detestável Rider, quer fazer ao vender lá fora as chinelas Ipanema Gisele Bündchen. Acho tudo muito interessante mas, pô, são apenas chinelas. Não é nenhum Picasso.

*N. do A.: importante ressaltar que o autor não tem absolutamente nada contra a classe dos pedreiros. Muito pelo contrário. Qualquer mau-entendido quanto a este post não passa disso mesmo - mau-entendido.
sexta - 21 de dezembro, 9h25


Poelavra

Vôo lê-se vô-o

Zôo lê-se zô

Se vôo se lesse vô

Zôo seria zô-o?
segunda - 17 de dezembro, 16h37


Em foco

Dizem que mulheres não se ligam muito em beleza masculina e que se amarram muito mais num cara "sensível, educado e romântico".

Pelo que eu ando vendo de homem feio com mulher gostosa, deve ser bem verdade.

Ou seja, os bonitos estão todos sobrando.

Valeu, garotas.

***

Troquei de óculos e estou me sentindo borracho.

Cheguei aos três graus de miopia. Longe dos oito do Mallmann, mas enconstando nos cinco da Rafaella e do mermão.

Quando fui ver armações novas, uma vermelha e prata me chamou a atenção. Mil e seiscentos contos, porém.

Se eu tivesse esse dinheiro todo, não compraria óculos; faria cirurgia a laser pra corrigir o problema. Dã.

Além do quê, as armações mais caras são as que mais estampam a marca. Tua cara vira um outdoor. Por isso, optei pela mais preta, mais discreta, mais fina e mais barata da loja. Só de birra.
segunda - 17 de dezembro, 10h50


É dando...

A Kibon vai dar dez mil iPods Shuffle pra galera. Os aparelhos serão colocados dentro de picolés falsos - i. é, não-comestíveis. Quem encontrar, fica com o brinquedo.

Outros produtos também poderiam ser distribuídos dessa forma - colocados dentro de alimentos. Por exemplo:

- celulares dentro de galinhas vivas;

- notebooks dentro de vacas;

- soda cáustica dentro do leite (feito);

- salmonela na maionese (feito);

- bundas humanas dentro de potes de sorvete (feito).
domingo - 16 de dezembro, 18h55


Neologismos latino-americanos

Um novo país surge à nossa vizinhança. É a Bolizuela, rica em petróleo, gás e esquerdistas ultrapassados.
sexta - 14 de dezembro, 10h05


07, 08

Banca, ontem. Estive nervoso a maior parte do tempo. Falei algumas merdas, tropecei em algumas palavras, apavorei-me por alguns instantes, mas nos saímos bem. Melhor do que esperávamos, na verdade. E no final das contas, pude perceber que não havia motivo pra tanta ansiedade, durante o semestre. Eu podia até ter dormido melhor. Perdi tempo e saúde com tanta angústia.

Mas quando eu lembro dos meus colegas que passaram a semana pré-banca vomitando de nervoso, eu percebo que podia ter sido pior.

***

Saí da Mirabolante. Tenho planos para os próximos meses, um projeto sobre o qual eu ainda não posso falar.

Me senti tão gente-famosa-em-programa-de-entrevista, agora.

***

Dica de leitura: Te dou um dado?. Faz bem pro ego.
terça - 11 de dezembro, 11h



o espírito de porco olha por este blogue


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