Decálogo contra a monotonia

Com o intuito de pôr fim ao tédio da rotina de uma vez por todas, a Comissão Especial Antimonotonia apresenta o seguinte decálogo a ser seguido à risca por chefes, diretores, presidentes, governantes, professores e todos os outros cargos de autoridade deste país.

1) Nas empresas e instituições, a ginástica laboral diária será substituída por breves shows de humoristas, comediantes, stand ups e similares.

2) Está terminantemente proibido o uso de Power Point ou retroprojetor em palestras, reuniões, aulas e seminários, visto que ambos elementos provocam sono em demasia, dificultando a concentração dos presentes. As ferramentas citadas devem ser substituídas por números de mágica inovadores (nada de pombos, coelhos, cartolas e mulheres serradas em três partes, por estes serem tão entediantes quanto aqueles).

3) O telejornal só será transmitido quando houver notícia nova a ser noticiada.

4) Está vetada a criação, produção e execução de músicas do estilo hip-hop americano.

5) Proíbe-se a exibição de produções cinematográficas americanas que contenham os seguintes elementos: perseguição de carros, explosões, troca de tiros, sangue falso, embate físico, cenas de dança e cenas de sexo.

6) Revistas e sites estão impedidos de publicar dicas para "apimentar o sexo", visto que, de tanto o fazerem, todos já aprendemos tudo sobre o assunto.

7) Veta-se o retorno de bandas e artistas que fizeram grande sucesso na década de 1980.

8) Está proibida a divulgação de dicas de como entrar em forma para o verão.

9) Programas televisivos estão impedidos de utilizar cenários virtuais e a previsão do tempo deve evitar as atuais megalomanias.

10) Por fim, proíbe-se a retórica da inclusão social e inclusão digital, visto que a inclusão-primeira que o povo precisa é aquela à sala de aula. O resto é conseqüência.
terça - 29 de janeiro, 10h50


Monarquia em terras brasileiras

Hoje, faz 200 anos que Dom João VI veio de Portugal, fugindo de Napoleão Bonaparte. A transferência do governo português para o Brasil trouxe muitas mudanças para a colônia (transformada às pressas em metrópole) - exceto na Educação.

No trecho a seguir, extraído do livro "Sistema educacional em questão", José Édil de Lima Alves descreve as alterações que a Educação brasileira não sofreu com a chegada da corte lusitana, e narra, em poucas palavras, suas conseqüências.

"Com a vinda da Família Real Portuguesa para o Brasil, não houve mudanças significativas no panorama educacional do país; como não haveria após a proclamação da independência política. Se durante o século XIX existiram possibilidades de autonomia, antes restrita, não mudara o espírito rude e colonialista dos que se mantiveram no poder. Haviam mudado, para permanecer. Como sempre!

Em nenhum setor ocorreu mudança substancial de comportamento. A independência política foi apenas a ruptura formal com a hierarquia do poder Lusitano, de resto prevista pelo próprio D. João VI. As classes sociais do Brasil não sofreram as mínimas alterações, e os meios de produção permaneceram os mesmos. Na força-trabalho continuou o braço escravo; as profissões liberais ocupadas com o comércio e artesanato, já que era impossível falar em outra coisa, como área para os pequenos-burgueses - mascates de procedência sempre duvidosa -; a aristocracia rural latifundiária produzia os militares graduados, alguns sacerdotes e os bacharéis, começando a alternar a residência campestre com a urbana. Dos bacharéis que cedo definiram sua opção pelas cidades, foram se formando os quadros políticos ditos liberais e conservadores - sob rótulos diferentes, o mesmo sistema ideológico em defesa dos privilégios para a classe dominante. Formava-se ali a tão famosa e restrita, até hoje, classe política."
terça - 22 de janeiro, 21h


Filosofando na rede

Link novo aí ao lado. É o FilosofoNet, do Michel Souza. Texto ágil, fácil, livre de academicismos e ideal para entusiastas casuais da Filosofia. Bumerangue! recomenda.
terça - 22 de janeiro, 10h48


As intenções de um blogueiro

Todo blogueiro já parou para pensar sobre as suas intenções com o seu blogue. Afinal, 1) blogue não dá dinheiro (salvo raras exceções, joga no Google que você descobre), assertiva esta constantemente reiterada por amigos e familiares que perguntam "que tu quer com isso? isso aí não dá dinheiro"; 2) é trabalhoso manter atualizado (porque na internet, o que não está up to date é imediatamente considerado velho) e 3) no final, seu blogue acaba sendo mais uma gota d´água num oceano que recebeu o superestimado nome de blogosfera. Nesta esfera, todo mundo tem algo a dizer, seja cientista, filósofo, grafiteiro, fotógrafo, burocrata, poeta ou estudante. Ao tomar consciência disso é que surge a pergunta: então, pra quê blogar?

A esta indagação, todo mundo tem uma resposta diferente. Pode conferir com qualquer blogueiro por aí. Tem gente que bloga para manter seus amigos de outras paragens informados sobre suas andanças; outros blogam para aumentar suas chances de serem capturados por um olheiro de editora e, assim, publicar um livro. Tem ainda aqueles que blogam para exercitar a escrita, e outros que o fazem tentando ser famosos na web tupiniquim. A internet é um espaço público que aceita tudo, apesar dos manuais de etiqueta não-oficiais que os próprios usuários cunharam de forma empírica. Dentro desta vasta liberdade, as liberdades e intenções individuais, mais cedo ou mais tarde, encontram eco. É isso, afinal, o que mantém um blogue.

A principal razão que faz um blogueiro blogar talvez seja esta: a certeza de que alguém vai ler o seu blogue. Em um mundo cada vez mais populoso, barulhento, interativo e colorido, o indivíduo sufoca e definha. Basta um minuto de atenção do outro, ou um comentário no seu blogue, para que novas perspectivas surjam. Rápido como o clique do mouse.

Blogar é, portanto, humanizar. Bloga-se para relacionar-se. Mesmo a relação mais silenciosa e invisível é relação. É ela que dá suporte ao trabalho de um blogueiro, é ela que o mantém blogando e é por ela que se bloga. Podem negar, fazer birra, bater o pé e falar em jornalismo online. Mas na verdade, somos todos, afinal, um bando de carentes em busca de atenção. Com ou sem blogue.
segunda - 21 de janeiro, 19h41


Vultos

Fiquei sabendo que fantasmas habitam alguns andares do edifício onde trabalho. Ao que parece, eles têm predileção pelo memorial do terceiro andar - onde trabalho - e pelo auditório do décimo-oitavo - onde tem reunião hoje. Ainda não vi nada suspeito, mas as histórias sobre portas que se fecham e objetos que se vão ao chão foram o suficiente para me deixar em alerta.

Não é que eu tenha medo de fantasma. Digo, nunca ninguém provou que fantasma existe. Mas também nunca ninguém provou que fantasma não existe. Então, por via das dúvidas, respeito o silêncio do lugar e tento não pensar nisso.
sexta - 18 de janeiro, 11h30


Vinhetas do VH1

Melhor canal de música. É o que a MTV já foi.

Das vinhetas, destaco Funiculi, funicula. Duca.
domingo - 13 de janeiro, 21h55


Cozinha de verão

Com a família na praia, a cozinha fica sob minha responsabilidade.

Finda a atapa dos congelados, inicia a etapa das massas.

Em seguida, etapa do arroz e da omelete.

Desejem-me sorte.
domingo - 13 de janeiro, 21h44


Significados

Algumas palavras têm recebido novos significados para mim, ultimamente. Por exemplo:

tempo: estudando mitologia grega, descobri que na verdade o tempo não existe. É invenção humana que nos ajuda a controlar as safras, as colheitas, as estações, o tempo online em uma lan house. De certa forma, a invenção do tempo está atrelada às necessidades econômicas. Tempo é dinheiro. Sem dinheiro, ele não existe. Quando percebemos que os ensinamentos da antiga Grécia mitológica ainda conseguem explicar a vida do homem do século XXI, comprovamos que tudo o que um dia existiu ainda existe e tudo o que existe agora sempre existirá. Nada passa, tudo é;

colônia: um país não deixa de ser colônia quando compra sua independência, como é o caso do Brasil, mas sim quando suas elites e oligarquias superam a mentalidade pequena e mesquinha típica dos colonizados. Esta superação passa obrigatoriamente por um projeto de Educação que favoreça aos filhos de todos e não somente aos filhos de alguns. A escola pública é a carta de alforria de um povo. A liberdade começa pelo quadro-negro, não pelas iniciativas megalômanas e carnavalescas que vemos anunciadas nos noticiários;

repressão: taí um assunto que tem caído em minhas mãos muito freqüentemente. Antes de estudar sobre a ditadura brasileira para compor um trabalho de conclusão de curso, eu não havia percebido como é fácil cometer absurdos em nome de uma causa dita nacionalista. E também não havia percebido que os reflexos do regime militar brasileiro continuam vivos nas ruas, escolas e instituições do nosso País. Somos todos filhos da ditadura. Nascemos da repressão, a temos em nossa carne. Apenas não temos consciência disso;

mulher: há um descompasso enorme entre muitas delas. Enquanto algumas conquistam a presidência de alguns países (um sopro de esperança para um mundo patriarcal e cruel), outras permanecem submissas aos seus maridos tal como fizeram durante muitos séculos. É curioso, mas ainda existem mulheres cujo objetivo na vida é ser escolhida por um homem. Conveniência, talvez? Medo de lutar? São perguntas cujas respostas ainda não encontrei.
sábado - 5 de janeiro, 11h18


Aracne

Ao que parece, não existe O beijo da mulher-aranha em DVD. Talvez seja a hora de começar uma campanha por isso.

A história é um libelo contra a opressão, seja ela política, ideológica ou sexual. Reflete sobre a insignificância do homem diante do poder que pune e mata - um discurso atualíssimo para uma sociedade que celebra os abusos do Capitão Nascimento e sua tropa de elite.

Se não temos o DVD, temos a capa dura. Leiam e percebam que na vida em confinamento o fluxo de consciência é, na verdade, fuga. E percebam também que se há compaixão não há prisão. Tá aí, mais uma lição para a nossa sociedade opressora.

Isso me lembra o mito grego de Aracne, a tecelã terrena que se gabava publicamente por sua habilidade e velocidade no urdume. Atena, deusa da sabedoria e inventora da tecelagem, ciente de todo esse orgulho arrogante (hybris, em grego) da jovem camponesa e temendo perder a adoração dos terrenos para uma qualquer, desafiou a tecelã numa competição de fiação.

Para a surpresa de Atena, Aracne era de fato tão ágil e precisa ao fiar quanto diziam por toda a Grécia. A jovem proclamou em voz alta que sua fiação era supeiror à de Atena, o que enfureceu a deusa.

Atena olhou para Aracne e disse: "se fiar é o que você faz melhor, pode fazer isso para sempre!" Assim, Aracne se transformou numa aranha e suas filhas estão condenadas a fiar por toda a existência.

Às vezes, a prisão não é feita de grades e correntes, mas de fios tão finos que mal conseguimos percebê-los. É assim, com teias e fios, que regimes autoritários conquistam a legitimidade popular: sem que nós percebamos.
sexta - 4 de janeiro, 11h26


Trecho da entrevista televisionada de uma conhecida top model que assina mais um contrato de milhões com, tipo, mais uma grife estrangeira

Pergunta - Sobre as fotos que vemos nos editoriais de moda, quanto do resultado final se deve ao esforço da modelo e quanto se deve ao esforço do fotógrafo?
Resposta - Metade, metade. Tipo, metade, metade.

P - Mas na prática, como funciona isso?
R - Ah, funciona. Funciona mesmo.

P - Sim, mas como é esse processo?
R - Ah, é longo. Tipo, demorado, entende?

P - (Pausa) Sei. (Suspira. Consulta suas fichas) O que você acha dos atuais impedimentos que a indústria da moda tem feito às modelos muito magras?
R - (Silêncio. Morde os lábios. Os olhos varrem o chão)

P - (Silêncio)
R - Ah, são muitas meninas, tipo...

P - (Silêncio)
R - Muitas delas, tipo, nem sabem direito...

P - (Silêncio)
R - É modelo. É, tipo, cabide...

P - (Silêncio)
R - (Silêncio)

P - (Pausa) Sei. (Suspira. Murmura alguma coisa) Intervalo e já voltamos.
quarta - 2 de janeiro, 21h03



o espírito de porco olha por este blogue


tem uma entrevista
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